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2020-10-16 07:58:00

Vale a pena ser professor? Sim!

“Mas é claro que vale! Eu sou professora desde sempre. Vou ser professora até morrer. Temos que enfrentar todas as adversidades que estão sendo postas, mas isso não significa que em outras profissões também não vão enfrentar, além disso, nós formamos todas as outras profissões. Então, vale muito a pena ser professor, porque quando eu sou professora eu tenho a oportunidade de despertar em outras pessoas o desejo de ser mais, de realizarem e fazer as coisas acontecerem nas suas vidas.”  Diz a professora Zilda Mendonça

No dia do professor, o Jornal O Espaço homenageia a classe com a entrevista de Zilda Gonçalves de Carvalho Mendonça. Ela é natural de Rio Verde e, possui graduação em Pedagogia; Especialização em História e Filosofia da Educação (1988), Metodologia do Ensino Superior (1994), Mestrado e Doutorado em Educação também pela Universidade Federal de Uberlândia. Professora titular aposentada da Universidade de Rio Verde. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Formação de Professores e Ensino Superior.  É Autora de obras acadêmicas. Pesquisa e escreve artigos publicados em revistas científicas e/ou são apresentados em congressos na área da educação no Brasil e exterior. E também é autora de capítulos de livros na área da educação. Publica artigos pela Editora Rede Sem Fronteiras, com distribuição para 28 países. É Vice-Governadora da Representação Distrital do InBrasCI (Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais) no Estado de Goiás - seccional Rio Verde-GO e Membro Vitalício da Academia de Letras do Brasil, onde ocupa a cadeira n. 15 da Academia de Letras do Brasil, seccional Goiás, tendo como patrono Carlos Drumond de Andrade. É Membro do CMDM (Conselho Municipal dos Direitos da Mulher) na cidade de Rio Verde-GO. Presidente Coordenadora da AJEB-GO (Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – Coordenadoria Goiás)


   O Espaço – Qual é a diferença de método ao trabalhar no ensino superior e nos demais níveis que antecedem o superior? E ainda, qual é a diferença entre o ensino antigo e o contemporâneo? 
   Zilda Mendonça – Vamos fazer uma análise detalhada, para começar. Para eu ser professora da rede infantil, eu preciso ser educadora, preciso ser pedagoga com formação nesta área, para eu compreender como a criança cresce, como ela aprende e qual a didática melhor para as crianças que eu tenho; o ensino fundamental passa por aí, também. Na primeira fase, não é muito difícil encontrar pessoas formadas e preparadas, que vão atuar nas salas de aula, mas, a partir da quinta série, começamos a ter um problema sério em todo o País, que são os professores que trabalham com matérias específicas, com conteúdo específicos... e temos uma “política” de desaceleração de formação de professores no Brasil inteiro, particularmente em Letras, Matemática, Biologia, Química e outras, temos uma defasagem absurda, mas hoje, vamos encontrar pessoas com boa vontade trabalhando nessas séries, são pessoas com contratos especiais das quais eu nem gostaria de falar.
   O fato é que no ensino fundamental eu trabalho com a pedagogia, na alfabetização eu trabalho com a pedagogia, já na alfabetização de adultos e no ensino superior eu trabalho com a andragogia. Para ficar claro, vou explicar da seguinte forma: a pedagogia é o estudo da ciência que orienta o ensino e a aprendizagem das crianças e, a andragogia a parte da ciência que pesquisa, estuda e ensina como ensinar e fazer aprender o jovem e o adulto.
   O processo de ensinar o adulto não pode ser igual ao de ensinar crianças. Como você vai estimular pessoas com mais de 15 anos a estudar sua matéria, se interessarem pela sua aula, sem uma forma consistente para chamar a atenção dele? Também com uma metodologia que vai de encontro à vontade dessa pessoa, em aprender? Então, a andragogia vem para nos auxiliar nessa proposta.

   O Espaço – Professora! Temos muitos assuntos para falar. Vamos explorar esse assunto que está em voga, que é o ensino à distância, aulas virtuais, etc. Isso tudo tem qualidade? Todos os alunos têm celulares? Qual é a sua avaliação? Este ano está perdido? 
   Zilda Mendonça – Perdido, não! Mas comprometido, com certeza! Olha! Temos um pedreiro conhecido, que tem uma filhinha na escola. Ela não parou de estudar. Seus irmãos mais velhos vão à escola buscar as tarefas, eles ajudam a menininha e levam de volta, a tarefa feita. Temos mais exemplos como esse. Pessoas assim nos mostram que é absolutamente possível continuar com o ensino, com a aprendizagem, mesmo à distância e em uma época de pandemia, como essa do Covid. Mas a verdade é que estávamos acostumados com uma escola que assumiu toda a responsabilidade do ensino e, de repente, nesse período de pandemia, a família teve que participar efetivamente do processo.
   Agora, temos outro problema, nossas escolas, nossos professores estão correndo atrás desesperadamente, fazendo o possível para chegar ao patamar de um nível satisfatório para oferecer o conteúdo, a aula, um momento de tirar dúvidas, de estar com os alunos em tempo real, que tipo de site será o melhor e por aí vai... eu não vou te dizer que isso tudo vai acontecer com uma qualidade espetacular, já, ainda apanhamos com a tecnologia, então, o professor agora, precisa de metodologias ativas, o tipo de metodologia para ele enviar as atividades para os alunos, ele precisa criar um sistema para orientação, um chat de bate-papo para tirar dúvidas e muito mais...

   O Espaço – Só uma parte... o professor de hoje trabalha mais do que o do século passado? 
   Zilda Mendonça – O professor de hoje trabalho muito mais, mesmo porque ele trabalha e estuda o tempo todo para estar pronto para o trabalho pedagógico. Antigamente, as pessoas se formavam no “normal” e pronto! Estavam preparadas e não precisavam se atualizar. Hoje é muito diferente, não existe profissão que se forma e não precisa de atualização, por isso, o estudo é constante. Outro fato, é que naquela época, principalmente as professoras, não tinham que se responsabilizar pela manutenção das despesas da casa, sem contar que em muitos lares, a mulher é a principal provedora. Da mesma forma que antes, tinham profissionais que faziam bicos na escola ou trabalhavam voluntariamente para ensinar nas escolas. Hoje, também temos essas pessoas voluntárias, o que eu particularmente condeno. Não condeno o voluntarismo e a boa vontade das pessoas de irem lá, para contribuir, mas eu condeno o sistema que permite que isso aconteça. Isso é ruim para a pessoa, porque está fazendo um subtrabalho, e de repente, pode ser uma pessoa que está ali sem as qualificações necessárias para ensinar e deixar nossos alunos em condições de concorrer com estudantes do mundo inteiro. 

   O Espaço – O método Paulo Freire encantou o Brasil por muitos anos. Ultimamente, surgiu o modelo militar de educação para os civis. O que está acontecendo? Qual é a análise que você faz sobre isso? 
   Zilda Mendonça – Eu não acredito em debandada contra o Paulo Freire! O Paulo Freire, a Vanilda Paiva e outros teóricos brasileiros, tratam sobre isso. Paulo Freire tem uma proposta teórica superinteressante para nós observarmos, mas que vem sendo tratada hoje, de forma diferente e que tem muita gente batendo contra, mas, é preciso olhar a educação planetária; a pedagogia planetária, a questão com o cuidado com o planeta, como deve ser a postura do professor, do aluno, da família, do sujeito, no mundo...  com o mundo. Nós somos responsáveis por aquilo que fazemos e também pelo que não fazemos; estamos aqui para deixar um legado e não pode ser qualquer coisa e, o Paulo Freire nos ensina isso: que nós somos essas pessoas responsáveis. Precisamos ensinarem as pessoas a pensarem e a compreenderem o seu mundo e, ele começa dizendo que antes de fazer a leitura que a escola ensina, nós aprendemos a leitura do mundo. A leitura do mundo precede a leitura dos livros. 
   Paulo Freire nos ajuda também como compreender como deve ser essa proposta metodológica e a fundamentação teórica para tratarmos os adultos, estando lá na universidade. Então, a forma de tratamento deve ser diferenciada. Eu não acredito que o Paulo Freire deixe de ser uma referência, uma teoria ou uma proposta que fundamente a educação em qualquer nível, até porque Paulo Freire é um dos teóricos mais estudados no mundo; vinte e oito países usam a teoria Paulo Freire para orientar a escola.   

   O Espaço – O presidente Bolsonaro tem desqualificado as teorias de Paulo Freire. Como você vê isso? 
   Zilda Mendonça – Desconfio que o Presidente não conhece a teoria Freiriana. Ele deve ter tido apenas uma formação militar e não passou pela formação universitária e teórica de muitos teóricos que orientam a educação no Brasil e no mundo, inclusive, o professor que está aprendendo para ensinar, vai ter que dar uma olhadinha em Paulo Freire e também nos teóricos atuais, para se orientar melhor.

   O Espaço – Você é a favor do ensino militar? 
   Zilda Mendonça – Posso dizer que sou a favor da educação libertadora. Para falar algo mais, eu precisaria saber se quem está ministrando aulas nas escolas militares, são apenas militares ou pessoas bem formadas para atuar na educação.

   O Espaço – O que você pensa sobre esse comportamento social, onde todos acham que sabe tudo e podem dar receitas de como resolver tudo com mais facilidade na política, na economia e por aí vai? 
   Zilda Mendonça – Isso é apenas informação. Atualmente, temos pessoas que dão sua opinião sobre diversos assuntos, simplesmente porque têm informações, são leitores e buscam essas informações. A verdade é que as pessoas são muito informadas, porém, devo dizer que a informação pode ser fabricada de toda ordem, pode ser uma informação válida, verdadeira, superimportante, mas também temos uma série de informações falsas, fabricadas para enganação. Assim, essas pessoas têm muitas informações, mas, cabe às pessoas que estão gerenciando a cidade, saber discernir, separar e ter inteligência para saber conduzir essas pessoas. Não podemos simplesmente basear no senso comum, mesmo que muita gente bem informada se baseia no senso comum, agora, quem tem sabedoria, tem propostas e sabe a que resultado vai chegar.

   O Espaço – Professora! A nossa classe passa por muitas dificuldades e eu pergunto: vale a penas ser professor? 
   Zilda Mendonça – Mas é claro que vale! (riso) Devo dizer que não sou a pessoa certa para falar contra o professor. Eu sou professora desde sempre. Vou ser professora até morrer. Digo ainda, que com todos aqueles que trabalhei para formar, eu trabalhei com a minha maior e melhor qualificação. É claro que temos que enfrentar todas as adversidades que estão sendo postas, mas isso não significa que em outras profissões também não vão enfrentar, além disso, nós formamos todas as outras profissões. Então, vale muito a pena ser professor, porque quando eu sou professora eu tenho a oportunidade de despertar em outras pessoas o desejo de ser mais, de realizarem e fazer as coisas acontecerem nas suas vidas. Por isso eu digo ao professor nesta data, Feliz Dia dos Professores!