2020-10-16 07:50:00
Professor(a), não por falta de opção!
Zilda Gonçalves de Carvalho Mendonça é Professora Titular aposentada(UNIRV), Doutora em Educação.
Sou Professora! Escolhi ser, mesmo sendo provocada desde o início de minha formação. Ouvia com frequência que “não passaria de professorinha de grupinho”. Muitas pessoas insistiam para que eu desistisse da faculdade de Pedagogia, “que só dava prejuízo e que não me levaria a lugar nenhum”. E no momento contemporâneo, continua o bullying contra quem faz opção pela docência!
Ao se falar sobre professor, é comum o discurso privilegiar todas as dificuldades, limitações em relação à sala de aula, aos estudantes e ao salário. Poucas pessoas colaboram para o reconhecimento do trabalho na docência como necessário, importante e feito por profissionais que, igualmente, merecem respeito, consideração e valorização sob todos aspectos.
Inúmeros são os questionamentos relacionados à docência. E isso não ocorre agora, mas marca a trajetória histórica da função, da profissão e do sujeito que a faz. Prova disso é assistir ao ministro da Educação, Milton Ribeiro, afirmar que “hoje ser professor é ter quase uma declaração de que a pessoa não conseguiu outra coisa”. Por traz dessa fala existe um preconceito arraigado contra os que trabalham e fazem a escola e a educação.
Diante desse contexto é interessante sublinhar que quanto mais se fala mal da escola e dos professores, mais se busca esse espaço e tais profissionais. Agora é preciso a escola de tempo integral para uma educação e formação humana integral. Curioso, não é?! Parece que a desqualificação do profissional e da escola tem o propósito de baixar custos e fazer valer a “autoridade” da sociedade e, consequentemente, dos pais. A final, eles, os professores, precisam conseguir formar filhos para que sejam os cidadãos que o mundo precisa, saindo de cena para que não sejam os protagonistas do processo.
Não é possível fechar os olhos para todas as mazelas que fazem parte do contexto escolar e da profissão professor: questões de reconhecimento, salários, formação, violência, saúde... dentre outros. Contudo, é imprescindível que seja estabelecido um novo paradigma que comece por sublinhar que comparada a outras profissões, o professor tem uma característica peculiar, já que o processo de seu trabalho resulta de exercício dinâmico e prático de relações interativas que ultrapassa a dimensão individual. O trabalho docente é coletivo.
Diante disso, muitos desafios prevalecem: superar antigos padrões de formação, muitas vezes limitados a “treinamentos” (olhe que palavra horrorosa!), os reducionismos com os quais são tratados, a reinvenção do ser e fazer professor na contemporaneidade. Para tanto, valores como resiliência, persistência, sabedoria e estudo compõem a trajetória dos que escolheram ser professor ou professora.
Mas preciso retomar o que afirmei no início desse texto, quando comecei falando de mim. De novo, afirmo: escolhi ser professora. Professora de crianças, de jovens adolescentes, de adultos e de professores. Quando partilho a minha utopia por um mundo transformado pelo conhecimento – esse, resultado da obra de professores – antevejo um sem número de encontros, novos saberes, grandes desafios, engajamentos.
E quando me perguntam se dei aulas ou as vendi, sempre respondo que fiz aulas. Assim mesmo, eu as fiz, do verbo fazer, tecer, construir, edificar. Muitos ainda perguntam se trabalhei. Sim, trabalhei! Para fazer minhas aulas eu tive que transformar muita coisa, muita matéria prima, para alcançar objetivos meus e de quem, de certa forma, estava sob meus cuidados. Claro que muitos vão achar que vivi e vivo iludida, que romantizo ou, até, que sou alheia à realidade. Mas preciso esclarecer: sou consciente sobre tudo que envolve a situação do professor e de seu contexto.
Fiz muitas opções sendo professora. Optei por continuar estudando, me formando, me preparando, me atualizando. Não se iludam que tais opções foram fáceis. Mas garanto que foram necessárias. Uma vez professora, escolhi fazer o que tinha que ser feito: fui à casa de alunos que não podiam ir à escola, estive em hospitais porque estudantes estavam doentes e não poderiam realizar as atividades em sala de aula, realizei aulas à distância quando sequer passava pela cabeça de alguém uma proeza dessas, criei condições para muitos se formarem já que não tinham condições para tanto.
Não sou a melhor professora porque tomei tais atitudes. Realizei o que acreditei e acredito para dar sentido ao meu fazer. Sempre afirmei que o que é necessário ser feito precisa ser bem feito. Então, meu o meu exemplo deveria (e deverá) ser a referência para tal. Eu, que sou professora desde muito jovem, defendo que Professor(a) é profissão estratégica. E quem a escolhe não o faz por falta de opção. Mas porque gosta de gente, acredita na humanidade e aposta na transformação como caminho para o crescimento de todos e do mundo.








