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2021-09-16 20:52:00

Razões para temer que um talibã gospel se instale no Brasil

Quais as chances de que o cenário político brasileiro esteja sendo preparado para a instalação de um regime totalitário semelhante ao implantado pelo Talibã? Seria um exagero considerar tal possibilidade? 

Quais as chances de que o cenário político brasileiro esteja sendo preparado para a instalação de um regime totalitário semelhante ao implantado pelo Talibã? Seria um exagero considerar tal possibilidade? 

Uma mensagem transmitida pelo WhatsApp na tarde deste sábado (14/8), encaminhada pelo presidente Jair Bolsonaro, fala sobre a necessidade de um “contragolpe” e convoca apoiadores para se manifestarem no dia 7 de setembro com o objetivo de avalizar uma ruptura institucional. Em um dos trechos da mensagem, defende-se que o “contingente” da manifestação em 7 de setembro deve ser “absurdamente gigante” para “comprovar e apoiar inclusive intencionalmente” o presidente e as Forças Armadas a dar um “bastante provável e necessário contragolpe.” 

Já não vimos este filme antes? Teríamos voltado a 1964? 
“Contragolpe” foi como os militares se referiram ao golpe que lançou o Brasil em duas décadas de ditadura.

Outro trecho da mensagem diz que a manifestação autorizaria o “nosso presidente Jair Bolsonaro juntamente com as nossas honrosas FFAA” a tomarem “as decisões cabíveis para que o Estado democrático de direito seja reestabelecido, o equilíbrio entre os poderes salvaguardado, o cumprimento da Constituição seja imperativo, o respeito à soberania nacional e do povo brasileiro sejam priorizados, a transparência das eleições seja cumprida e o resgate do STF hoje sequestrado por apátridas.” 

O mais assustador é que este movimento golpista está sendo apoiado por lideranças evangélicas expressivas como Silas Malafaia que têm usado ostensivamente seus perfis nas redes sociais para convocar o povo evangélico às ruas. 
E o que isso teria a ver com o talibã? 
O Talibã é um movimento fundamentalista islâmico nacionalista que se difundiu no Afeganistão. Seus idealizadores e membros mais influentes eram teólogos islâmicos e tinham como objetivo o estabelecimento de um regime teocrático baseado numa leitura extremista do Alcorão. O grupo governou o país durante cinco anos, até 2001, quando a coalizão liderada pelos Estados Unidos removeu-o do poder. A volta do regime é um retrocesso civilizacional. 

Há o receio de que o Talibã volte a impor leis baseadas na interpretação que o grupo faz do islamismo, pela qual mulheres quase não têm direitos. Durante a regência do regime, as meninas eram proibidas de estudar, as mulheres não podiam trabalhar e só podiam ser vistas em público com o corpo coberto pela burca e acompanhadas. A punição podia ir do espancamento à execução. O Talibã também promovia apedrejamento de mulheres acusadas de adultério.

Durante os 20 anos em que o Talibã esteve fora do poder, houve avanços significativos nos direitos das mulheres. Além das meninas ingressaram nas escolas, há mulheres no Parlamento, no governo e em empresas.

O retorno do Talibã ao poder é uma tragédia incomensurável. 
Guardadas as devidas proporções, o Brasil também sofre um retrocesso sem precedentes, com a perda de direitos conquistados a duras penas por minorias étnicas, pelas mulheres, pelas crianças e pela população LGBTQI+. Este retrocesso poderá ser agravado caso a nossa jovem democracia sofra um golpe de estado. 
O Talibã também não demonstra qualquer apreço à cultura e a ciência. Os golpistas anunciaram o fim da vacinação contra a COVID-19. Em 1998, os Talibãs queimaram toda a colecção de 55 000 livros de uma das mais belas bibliotecas públicas do Afeganistão, incluindo manuscritos  datados de dez séculos, entre eles, um exemplar do Alcorão. 

Alguém poderia dizer que o atual governo brasileiro tenha algum apreço pela cultura ou pela ciência? 

Entre as atividades banidas do Afeganistão durante o regime Talibã, destacam-se: 
Leitura de alguns livros;
Cinema e televisão (considerados decadentes e promotores da pornografia ou de ideias não muçulmanas);
Internet;
Música;
Artes (pinturas, estátuas e esculturas de outras religiões);
Empinar pipas (considerado perda de tempo, além de serem usadas em rituais hindus);
Fotografar mulheres e exibir tais fotografias;
Previsão do tempo;
Marinar alimentos.
Inspirada na Arábia Saudita, foi criada a polícia de “Prevenção do Vício e Promoção da Virtude”.

Outra marca registrada do regime é a intolerância religiosa. Um exemplo disso foi a destruição dos Budas de Bamiyan (Patrimônio da Humanidade), que, depois de sobreviver quase intactos durante 1500 anos, foram destruídos com dinamite e disparos de tanques. O Talibã decretou que as estátuas eram ídolos e, portanto, contrárias ao Alcorão. Não é em vão que pastores evangélicos estão fugindo do Afeganistão, após o grupo terrorista cercar Cabul, a capital do país. Não é de se admirar que líderes evangélicos brasileiros demonstrem mais preocupação com a perseguição que cristãos poderão sofrer do que com o sofrimento do povo Afegão como um todo, em especial as mulheres e crianças.  

O que tudo isso tem a ver com nosso país? Tudo! Tanto os que tomaram o poder no Afeganistão, quanto os que incitam a população brasileira contra as instituições alicerces da democracia, falam em nome de Deus e tentam impor seus próprios valores e visão de mundo à sociedade como um todo.

Hermes C. Fernandes